Não me contive e o caso que presenciei ontem teve que virar post:
Segunda-feira de Carnaval pela manhã. Treino no suplementar, após três dias de folga para os jogadores. Sol ardendo na cabeça e no lombo. Treino marcado para às 9h30, jogadores entraram em campo depois das 10h30. Não estou reclamando, fui lá porque eu quis, estou apenas contextualizando. Os goleiros já treinavam. Os jogadores entraram em campo e foram correr em torno do gramado. Mário Fernandes e Douglas eram os últimos do pelotão. Na primeira volta que deram em frente à torcida, um grito ecoou: “Vaaaamo Douglas”. Silêncio. Na segunda volta, desta vez outro torcedor: “Coooorre Douglas”, e mais um complementou: “Coorre...” acrescentando uma ofensa. Douglas, que até então tinha ignorado, parou de correr, virou-se para a torcida e pronunciou alguns palavrões destinados aos corneteiros. O preparador físico que acompanhava os jogadores pediu que ele se acalmasse e continuasse correndo. Este mesmo preparador encaminhou-se para perto da torcida e pediu que para que parassem e deixassem o camisa 10 treinar.
Depois desse fato, fiquei pensando: até que ponto o torcedor deve cobrar um jogador? Na minha opinião, torcedor tem direito de exigir, afinal, compra camisa, ingresso, paga o salário do atleta de alguma forma. Agora, ofender o cara, independente de como ele vem atuando, isso já vira problema pessoal. Pensa só: o que leva uma pessoa a acordar cedo, no feriado de Carnaval, sair de sua casa rumo ao Olímpico, chegar lá num solaço, pra cornetear jogador? Por favor, né, fica em casa então... Ir lá pra ofender o cara é muito não ter o que fazer!
Daí vão dizer que eu estou defendendo o Douglas, porque é o Douglas. Mas não é isso. Naquele jogo contra o Oriente Petrolero, critiquei muito ele no estádio, isso que ele fez dois gols. Admito que não vem jogando o quanto sabe e/ou deveria. Mas isso não é só com o Douglas. Isso é coisa de camisa 10, meio-campo armador. Para ficar nos casos mais recentes, é só lembrar do Tcheco e do Diego Souza. Como foram criticados... E isso não é privilégio do Grêmio: qualquer time que dependa de seu camisa 10 passa por isso. Como dizem, são o termômetro do time: se vão bem, o time joga bem; se desligam, o time para. O cara tem a responsabilidade de armar as jogadas, organizar o meio de campo, servir os atacantes... Se ele não joga, se não está em um dia inspirado, o time tranca. Acontece no Olímpico. Acontece no Inter com o D’Alessandro, no Cruzeiro com Montillo, no Flamengo com Ronaldinho, no Corinthians com Bruno César...
Acho sim que torcedor tem direito de exigir. Vaiar aquilo que acha que está errado. Mas até onde vai a autoridade do torcedor sobre o jogador? Para mim, não precisa ser sócio: se comprou ingresso para um jogo ou adquiriu uma camisa oficial, já tem direito de cobrar, afinal, ajudou o clube de alguma forma. E é por causa da torcida que o futebol existe. Se não existissem os torcedores, os jogadores não teriam motivos para entrar em campo. Então, torcedor é chefe de jogador, sim. E como subordinados, os atletas devem ouvir as críticas e tentar melhorar, afinal, nós, torcedores, pagamos os salários. Agora, tudo tem um limite. O vaiar, o criticar que eu me refiro é de uma forma civilizada. Nunca ofendendo o lado pessoal do jogador. Critica o futebol dele, a falta de vontade, mas não insulta.
No fim, logo fui embora do estádio. Na saída, vi que alguns seguranças do Grêmio rondavam a área onde estavam aqueles torcedores. Espero realmente que isso não aconteça de novo. Que o Douglas volte a apresentar aquele futebol bonito. Para calar a boca desses corneteiros. Para honrar a camisa 10 que veste. E para ajudar o Tricolor a conquistar mais títulos. Porque ele a gente sabe que tem capacidade de ser sempre o empregado destaque do mês. 
